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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Não há limite de idade para ser feliz...


Hoje assisti a uma apresentação de “Dança do Ventre de Senhoras Aposentadas”, numa comemoração de uma instituição de Previdência, que me comoveu.

Não eram senhoras cinqüentonas afogueadas ou exibidas, mas todas mulheres acima dos setenta anos, sem tentar camuflar as marcas do tempo, assumindo a terceira (já para quarta) idade, mas com uma alegria, um empenho, uma união e seriedade que dificilmente se encontra nos mais jovens.

Elas estavam a caráter, porém com trajes discretos, e cobertas por véus e kaftans, bem maquiadas, penteadas, descalças e esplendorosas. Os passos bem ensaiados, juntas, ali, como um grupo de amigas atemporais, deram seu recado, mostrando que não há limite de idade para se ser feliz ou simplesmente alegre.

Não percebi nessas mulheres o desespero de enganar o tempo, muito menos o ridículo de quererem aparentar o que não são. Não! Nada disso! Estavam ali se divertindo, brincando, exercitando a feminilidade, que não se perde com a flacidez ou a mudança física. Eram almas femininas e extremamente sensuais na inocência, na alegria, na integração de mente, corpo e espírito.

Como era uma apresentação em local público, naturalmente várias pessoas riram delas, debocharam de seus ventres flácidos e sem atrativos eróticos, ventres esses que já deram muito prazer, já acomodaram e protegeram muitos dos homens que poderiam estar ali. Mesmo esses, que inicialmente hostilizaram as doces e lindas damas, ao final as aplaudiram veementemente, porque perceberam a mensagem que estava embutida em cada passo tímido, em cada trejeito com as mãos enrugadas, em cada sorriso livre de máscara, numa entrega ao simples festejo de poder caminhar, dançar e encantar.

Aquelas senhoras lavaram minha alma, por vezes conturbada com a ameaça do tempo que passa, com os problemas que chegam e vão, com a lei do inquilinato da vida, que vem cobrar o aluguel e avisar do futuro despejo.

Elas simplesmente dançavam ao sabor das batidas marcadas da música árabe, como suaves borboletas bailando no ar, com seus pezinhos pequeninos, suas mãos de veludo e seus olhos de esperança, sua homenagem à vida.

Que suas vidas sejam sempre uma linda dança do ventre!

Salem Aleikum! (Que Deus as abençoe!)


OBS: Mais que simples movimentos de quadril, a dança do ventre é uma manifestação que permite à mulher redescobrir as suas forças femininas que o dia-a-dia e a repressão trataram de esconder.
É uma dança milenar que seguramente já existia na época dos faraós, onde as mulheres dançavam para louvar divindades femininas.
Com origem sagrada, esta é uma dança de celebração, em que comemoramos nossas alegrias. Ela é, acima de tudo, uma linguagem que usamos para interpretar as belas canções árabes que falam de amor, alegria e paixão. Através desta dança podemos expor sentimentos que encantam; aprendemos com o corpo e com o olhar a falar coisas que nem o mais habilidoso poeta consegue transmitir.

Lílian Maial
Retirado do site: http://www.overmundo.com.br/overblog/danca-do-ventre

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A Dançarina de Shamahka

“Certa noite, no Cairo, eu vi, com os olhos incrédulos, uma de nossas mais sagradas danças degradada junto a uma bestialidade horrível e revoltante.Ela é o poema de mistério e dor da maternidade, que todo homem asiático assiste com reverência e humildade, nos longínquos cantos da Ásia, onde o sopro destrutivo do ocidente ainda não penetrou. Nesta velha Ásia que tem mantido a dança em sua pureza primitiva, ela representa a maternidade, o mistério da concepção da vida, o sofrimento e a alegria com que uma nova alma é trazida ao mundo.Poderia qualquer homem, nascido de uma mulher, contemplar este tema tão sagrado, expresso numa arte tão pura e tão ritualística como a nossa Dança Oriental, sem menos do que uma profunda reverência? Tanto é a veneração asiática pela maternidade, que há países e tribos cujo mais solene juramento é feito sobre o ventre, porque é desta taça sagrada que a humanidade tem se provido.Mas o espírito do ocidente tinha tocado esta dança sagrada e ela se transformou na horrível Dança do Ventre. (...) Para mim, uma nauseante revelação da insuspeita oculta da bestialidade humana, para outros ela foi – diversão. Ouvi os risos abafados dos europeus. Vi sorrisos lascivos até nos lábios dos asiáticos, e fugi.”(Texto escrito por Armen Ohanian, em “A dançarina de Shamahka”, citado por Morroco, ao ver uma apresentação vulgar de Dança do Ventre.)
Este livro “A Dançarina de Shamahka”, de 1923, citado nos estudos da bailarina e pesquisadora norte-americana Morroco, e da brasileira Cláudia Cenci, reconta as memórias da autora, Armen Ohanian. No trecho citado acima, ela comenta seu desgosto ao ver uma performance de uma dançarina do Cairo.Segundo Cláudia Cenci, Armen Ohanian, vinda da Armênia, foi um raro fenômeno para sua época, pois era proveniente de uma família muito próspera e rica. Tendo sido muito apreciada pelos artistas e intelectuais da época, com os quais tinha grande afinidade, foi uma grande pensadora da Dança Oriental, cujo final de carreira lamentou a influência do ocidente na dança, que segundo ela, jamais compreendeu seu verdadeiro significado sagrado.O texto de “A Dançarina de Shamahka”, foi citado nos artigos “Roots” (Origens) e “Belly Dancing and Childbirth” (Dança do Ventre e Nascimento), da bailarina e pesquisadora norte-americana Morocco. Trata-se de um trabalho detalhado sobre as danças do Oriente Médio, o qual, Morocco teve acesso.Em seus estudos, Morocco afirma que a Dança do Ventre tem sua origem diretamente ligada à fertilidade e à maternidade. Segundo informações que a pesquisadora adquiriu no contato com Farab Firdoz (uma bailarina da Arábia Saudita que abordou Morocco logo após uma performance e se tornou sua amiga), os movimentos como tremidos, ondulações abdominais, e outros realizados em alguns solos de chão, foram inspirados nos movimentos de labor e nascimento, que eram parte de uma cerimônia religiosa, de milhares de anos atrás; mas, com o advento do monoteísmo e dos vários estilos de restrições religiosas, deixou de ser religiosa e passou a ser secular, tanto como entretenimento ou como um ritual terapêutico. Em áreas remotas do oriente, que ainda não foram contaminadas pelas idéias ocidentais, todas as mulheres se reuniriam em torno de uma parturiente realizando certos tipos de movimentos, com o propósito de hipnotizá-la encorajando-a a fazer o mesmo, a fim de facilitar o nascimento e reduzir a dor das contrações, e lembrar umas às outras de que compartilham o mesmo destino e experiências como mulheres. De acordo com a informação fornecida por Farab Firdoz a Morocco, os músculos abdominais dessas mulheres estariam fortalecidos e bem mais preparados para o parto, porque desde a infância, já teriam praticado estes movimentos nas danças folclóricas.Morocco conta que uma tenda foi construída no final do vilarejo, para onde a parturiente se dirigiria para o parto. Uma pequena cova foi feita no chão, bem no meio da tenda – para a chegada do bebê. A tenda era abastecida por alimentos diversos, frutas e chás, e um divã para a futura mãe. Não era permitida a permanência de homens na tenda das mulheres.As mulheres passaram o dia cantando, dançando e tocando instrumentos, tomando chá e comendo, enquanto o trabalho de parto não se iniciava. Inclusive a parturiente foi capaz de dançar junto com as outras mulheres da tribo.Quando trabalho de parto começou, iniciou-se uma espécie de ritual de apoio e confraternização, com a parturiente no centro, agachada sobre a cova. As companheiras formavam uma série de círculos em volta dela, e começaram a cantar lentamente, movimentando-se em sentido horário, e realizando lentas ondulações abdominais – mais fortes do que o que conhecemos por tremidos, como uma forma de apoio psicológico à companheira que estava preste a dar à luz.Em alguns momentos, a parturiente se levantava e, no mesmo lugar, realizava os mesmos movimentos do grupo, também em razão das contrações, para depois se agachar novamente. De acordo com Morocco, ela não parecia agitada ou sofrer de alguma dor. O único sinal de esforço percebido por ela foi transpiração efusiva.Assim que os bebês nasceram (gêmeos), as mulheres deram o grito beduíno, levando a notícia ao pai da criança. Este, se dirigiu à tenda e parou a uma distância exata do local, para onde os bebês foram levados afim de que ele os pudesse ver, depois retornaram para serem amamentados. As mulheres retomaram o canto e continuaram dançando até o pôr do sol.Recomendo que acessem o texto de Morroco na íntegra, em seu site oficial: http://www.casbahdance.org/

domingo, 9 de agosto de 2009

O fácil é o certo, já diziam os Titãs...

Gosto de usar certas frases dos Titãs durante a minha vida, porque considero que elas sintetizam meus estados de espírito... E no momento, ainda que a inspiração deles tenha sido o pensador chinês Chung Tsu são as vozes titânicas cantando “o fácil é o certo / o certo é o fácil / o fácil é o certo” que não me saem da cabeça, depois de pensar sobre a dança do ventre e treinar certos movimentos. Parece óbvio para mim que quanto mais esforço eu emprego, pior sai minha dança. Difícil é ensinar isso! As pessoas estão acostumadas a “no pain, no gain” (sem dor não se ganha nada). A lei do maior esforço contaminou a mente contemporânea. Mas quando o assunto é dançar, sou pela lei do menor esforço.
Em sintonia com meus pensamentos encontrei o DVD Power Wave de Gabrielle Roth, uma pesquisadora e dançarina estadunidense que realiza há muitos anos um trabalho notável na área de dança. Sua onda poderosa, como denomina seu método de dançar, requer tudo, menos esforço. No DVD onde demonstra os cinco ritmos em que divide seu método, constantemente ouvimos a voz de Gabrielle repetindo “suave”, “sem esforço”, “deixe fluir”, “não se extenue”, “não se canse”... E por aí vai...
Muitos dos movimentos que aprendi ao longo de minha vida como dançarina só foram realmente assimilados quando relaxei. Enquanto me mantive tensa, com toda a musculatura arduamente envolvida na atividade, o máximo que alcancei foram lesões. Perceba-se aprendendo. Se estiver muito difícil, não está certo. Tem alguma coisa errada com o método. Não é com você o problema. Geralmente é com quem está ensinando. Por isso sempre fui a favor da iniciativa autodidática. Apesar das desvantagens de se estar sozinho, é mais provável que você consiga se respeitar e reconhecer limites, saber o que funciona melhor e buscar o andamento mais apropriado para se desenvolver. “Faça o que está fazendo / Não o que estou lhe dizendo”, novamente a música...
Os Titãs se inspiraram na frase de um pensador chinês do século III; Gabrielle Roth pesquisou várias culturas orientais e foi meditadora, adepta de Osho, assim como eu. Talvez seja necessário levar a sério o oriente para alcançar a transcendência. Orientar-se! Finalmente, ainda com a música em mente, deixo outra mensagem deles para encerrar o assunto: “Tanto faz como se chama / Entregue-se ao que você ama”.

Retirado do site: http://corposemventre.blogspot.com/

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Espelho, espelho meu....

Já soube de muitos casos de bailarinas que viraram professoras para satisfazer o ego. Eram boas bailarinas e começaram a ouvir: “nooossa... como você dança bem! Deveria começar a dar aulas!!!” Aí a pessoa se joga (pq vamos combinar, não é tão difícil encontrar uma salinha de academia pra dar aula, né?) Pessoas que adoram ficar dançando na frente do espelho enquanto as “pobres mortais” tentam seguir a imagem refletida. Não ensinam o “pulo do gato” do movimento, guardam os segredos só pra elas; ignoram que cada aluna tem seu timing, seu jeito... Desta forma, ou criam pessoas frustradas, que pensam que nunca vão conseguir fazer os movimentos ou alunas que endeusam professora apenas por isso, pois pensam que ela deve ser uma espécie de mutante. Que coisa feia, né?

Eu também me joguei. Não tinha experiência, não tinha apoio.Foi bem complicado o início. A minha sorte é que, mesmo iniciando nisso, eu tinha uma base intelectual da minha faculdade, o que me dava um apoio para trabalhar com pessoas, sacar o que estava acontecendo com o grupo e comigo.

Acredito que nosso papel deve ser ensinar os movimentos de várias formas, até que a aluna entenda. Muitas vezes, ele não sai de primeira, é claro, pois a aluna até entende, mas o corpo precisa de um tempo para internalizar o movimento, entender seu caminho. Precisamos lidar com a frustração momentânea da aluna e mostrar que “há uma luz no fim do túnel”, ou seja, ela vai aprender sim, é só se dedicar. É isso que temos que fazer: ensinar o caminho de chegada, se precisar fazer várias paradas se necessário. E, deixar sempre claro que a caminhada nunca termina, o que muda é o asfalto...

Não sou a melhor professora do mundo, mas me esforço para oferecer coisas boas para as meninas. Busco desde o início, ser uma professora que eu gostaria de ter tido. Esse é o meu termômetro até hoje.

Retirado do blogue: "Espaço Mannat"